quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Cinema Mudo

Ah, quem me dera...
Que eu não mais tivesse lembranças dos tempos idos
E que não já tivesse na alma tantos calos doídos

Ah, quem me dera
Que não carregasse nos ossos a ferrugem das horas
E que se esvaíssem do peito agonias de outrora


Ah, quem me dera
Poder ajoelhar e sorver do chão todas as gotas desse leite derramado
Mas de mim esses joelhos reumáticos troçam e dizem:
Amigo, já és passado Vitor Gois

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Vespa Notívaga


Homens com nervos de aço
Mulheres com cheiro de flor
A eles amargam no trago
Já elas com as dores do amor

Cambaleando pelas ruas, vespa da hora tardia
Diz que essa coisa de amar não traz paz,não traz pão
Suspira entorpecida, a notívaga vadia
Desiludida, corpo em corpo encontra redenção

Vitor Gois

Versos Ébrios


Meu caro amor e amigo
Nesses tais ébrios soluços se encerra
O último trago a que a ti dedico
E já tão fora de meus sentidos,
Declamo versos de amor e guerra

Enquanto me esquivo, tropego
Pelas esquinas de uma cidade abandonada
O ar pulsando e sufocando em sustenido
Ressoando as tristes notas de um amante afônico
Que só tem a si e à madrugada...


Vitor Gois

Poesia Obscena


E à noite me entrego, sagrada
Saciando em tí minha sede
Se era pudor, sobrou mais nada
testemunham, caladas, as paredes

E o querer consome em brasa
Quando me aperta a carne tenra
"Te quero, me queres, mais nada"
Conjugo, suave obscena

Me abro e reparto, sequiosa
Consumando amor transcendente
Me viro e reviro, enlevada
E enfim tua vida jorra livre em meu ventre

Vitor Gois

Canção cálida


Pois no meu quarto, toda noite tem canção
Lá estando tú ou não
Dizer "só teu" é ilusão
E até um insulto ao meu colchão

E no meu quarto toda noite tem luar
Aconchegos de ninar
mesmo se tú for passear
Vai ter alguém pra me esquentar

De corpo e alma lhe pertenço
Mas sozinho não ei de ficar!
Pois se me desprezas,pequeno rapaz...
É à  lua que eu vou me entregar/

Vitor Gois

Beleza fugidía


Pois que uma flor
Nasceu em negro chão
Delicada como o toque
E tão rubra quanto o fogo
Enfeitando triste lodo
Contrastando o vil carvão
Foi lançanda em triste sina
Como um sinal de mau-gosto

E a dita lá vivia
Sem tristeza ou alegria
Sem prazer ou agonia
Em torpor, só existia

Me pergunto se tal flor
Tornaria-se infeliz
E manteria a compostura
Ao saber que a formosura
Lhe escapaza triz a triz

Com o tempo a passar
A ví morrer, a vi murchar
Sem saber se era pecado
A ter cortado, a ter roubado
Com muito zelo e cuidado
Pra enfeitar meu bem amado

Vitor Gois

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A triste história dos papagaios xifópagos

  Em algum lugar  minúsculo desse imenso planeta, existiam dois papagaios xifópagos mergulhados em uma inércia tão profunda que nem se podia dizer que ainda viviam...existiam.
  E tal estado de ser - criando uma impossibilidade gramatical para explicar que assim estavam há tanto tempo que já nem sabiam como poderia ser diferente - se dava ao fato de que um deles queria ficar e estabelecer raizes tão profundas que a própria terra se abriria diante de tal magnitude, e o outro anseava em riscar seu verde-cana em certos azuis-anil salpicados de branco até encontrar a curvatura do mundo.
  Cada um movimentava uma asa, e sucumbindo à paixões distintas, cada um a movia na direção oposta à do outro,  girando e girando até cansarem. tal espetáculo podia ser visto todo dia começando logo ao amanhecer e terminando quando o sol se escondia no horizonte.
  Algo que se pode dizer sobre papagaios xifópagos, é que não conhecem o conceito de sacrifício, e insistiam dia após dia em tentar impor sua vontade sobre o outro, e tal como o encontro de uma força que não pode ser parada com uma força que não pode ser movida, permanecem sempre no mesmo lugar pelo tempo de suas eternidades particulares, parados, sonhando com um mundo onde não existam meios-termos